Tem post que eu planejo escrever, mas tem outros, como esse, que nascem de uma coleção de pensamento que a gente vai alinhavando conforme a vida acontece.
A semana que passou eu troquei figurinhas com a Liliane. Imigrante como eu, mas lá no Canadá, pedi colo a ela pra lidar com minha tristeza por ser a pessoa que está distante tanto quando a prima querida morre, quanto quando a sobrinha linda faz uma festinha de aniversário de seis anos com os Beatles como tema. Eu sou a que não está lá pra chorar junto e também pra sorrir junto. E mesmo que eu pegue um avião amanhã, não há recuperação possível. Eu já mudei, as pessoas já mudaram, a vida continuou e é tudo irrecuperável, só resta continuar, seja aqui ou lá. Não necessariamente isso é ruim, mas dói muito enquanto eu ainda não construí coisas aqui. Vim para uma cidade onde eu não conhecia nada nem ninguém, estou aqui há sete meses, essa construção não acontece da noite para o dia. Ela demanda paciência e alguma dor.
A Luciana escreveu este post sobre blogs que contam a experiência de quem está longe, impresões de viagem e tal. Parece que tem um povo mal humorado que acha uma perda de tempo escrever sobre Paris ou Lisboa, como se nada mais houvesse a ser dito sobre esse lugares, como se o interessante do relato não fosse, justamente, o olhar de quem me conta. Eu vivo uma situação completamente diferente. Chester não está no imaginário das pessoas que eu conheço. Mas isso não é uma vantagem, como se transformasse meu relato mais interessante. Sinto, na verdade, que isso me aliena mais. Como se eu tivesse falando de uma distopia, da Terra do Nunca – e acaba de me ocorrer que talvez seja um bom momento para dar uma chance pra literatura de fantasia, porque hobbits ou ingleses, são todos pessoas que vivem no “Shire” e falam a língua esquisita da Terra Média. Vivo em uma distopia em que há eu, o Daniel, e um monte de gente estranha.
E bom, por conta disso, o sentimento é de luto do conhecido. E é parte da adaptação, eu sei, mas há dias horríveis. Às vezes semanas inteiras horríveis. Porque o Daniel acorda, toma café pega o ônibus e vai fazer algo que tem relação com um aspecto consolidado da identidade dele. Mesmo que ele um dia mude de área, ele não é mais nem menos especialista do que era no Brasil ou na Alemanha. Há algo além da minha presença que confirma o que ele já sabe sobre si mesmo. Apesar do deslocamento geográfico, da quantidade de coisas a aprender no emprego novo, ele lida com mais dados conhecidos do que eu.
Então eu sou uma pessoa que pode passar dois dias chorando. Normalmente as coisas melhoram depois, voltam a ficar ruins em outros momentos, e assim vamos levando a vida. Mas seria muito fácil usar só meus períodos ruins como se fossem a média e me diagnosticar como deprimida. Eu fiquei pensando nisso lendo primeiro esse artigo que fala sobre a epidemia de diagnósticos de TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade), essa patoligização do comportamento infantil. Depois, lendo hoje a coluna da Eliane Brum, sobre a publicação do DSM-5, a versão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Doenças Mentais, que expande o conceito de doença mental e patologiza uma série de comportamentos. Se levarmos as interpretações do DSM-5 ao pé da letra, não pode mais ficar triste, ou os lutos não podem se extender para além de duas semanas.
Tenho mais de uma amiga tomando anti-depressivos. Não sou médica, não cabe a mim julgar se é um diagnóstico preciso ou não, mas elas me relataram seus problemas como sendo mais pesados do que tristeza – e muito mais sérios do que uma tristeza ocasional. Eu sequer estou triste o tempo todo. Não me definiria como uma pessoa triste ou doente, mas uma pessoa com uma dificuldade bem grande pra dar conta. E eu vou dando conta dela como posso. Já pensei em voltar pra análise, em fazer as sessões por skype ou algo assim. Eu virei fã da psicanálise porque acho que ela é muito mais uma ferramenta de auto-conhecimento do que algo que patologiza pessoas. Há um preconceito que coloca em um balaio só um monte de questões, de sofrimentos, de comportamentos, e se você paga alguém pra ouvir seus problemas é fútil ou é doida. Já paguei, pagaria de novo, porque sou uma pessoa saudável, mas com um abacaxi aí bem grande pra descascar – uma faca mais afiada que a minha só pode colaborar na tarefa. Neste momento estou descascando sozinha, mas posso mudar de ideia e pedir ajuda, por que não?
Por fim, a Marjorie colocou no FB este vídeo (desculpem, não tem legenda em português, mas tem em espanhol se ajudar, é só caçar lá na barra inferior). E a gente comentou que dá pra concordar com a palestrante, que é o fato de que os trinta são os trinta mesmo e aminha vida toda é fruto das decisões que eu tomei até aqui. Não dá pra pensar que há algo na nossa trajetória que não importa. Concordo também que é meio assustadora essa infantilização de gente adulta, e conheço pessoas da minha idade que tem uma enorme dificuldade se se posicionarem assertivamente em relação às suas decisões. Mas o discurso envolvido é tão, mas tão conservador, que no final achei graça. E juro que não é despeito de quem se sentiu atingida como pessoa-de-trinta-anos-sem-sucesso. Porque olha, todo mundo quer um casamento e uma carreira promissora (aka, que pague muito bem). Todo mundo quer ter filhos. Melhor que você não deixe pra pensar nessas coisas depois dos trinta, vai resolvendo sua vida já aos vinte. Gente, então não pode mais namorar só pra se divertir? Não pode mais experimentar só por prazer? Eu acho mesmo que se aos vinte você sabe com o quê quer trabalhar e sabe que quer casar, não tem porque esperar mesmo. Mas e se as prioridades são outras?
Às vezes me sinto muito mal porque me comparo com este modelo conservador de sucesso. E sinto mesmo como se a vida tivesse passado e olha, como fracassei, agora só falta ficar velha, yadda, yadda, porque esse discurso é mesmo muito forte. Daí, nos dias melhores, eu respiro fundo e me dou conta de que sou só uma pessoa que está com dificuldades pra encontrar uma atividade remunerada e ambientes de socialização fora da internet. É o que temos pra hoje, não tá super legal, mas eu já deveria ter aprendido que a vida não é estática – ainda bem.
Então peço colo quando preciso (brigada de novo, Liliane!), demando atenção quando posso, choro, tenho dias horríveis, mas não posso aceitar o discurso que obriga que a felicidade extrema – ou pior, a apatia diante das dificuldades – sejam obrigatórias. Ou que minhas dificuldades cotidianas sejam sinais inequívocos de doença. Pior: que minhas dúvidas constantes sejam atestado de fracasso.









