Das dores da adaptação e da patologização

Tem post que eu planejo escrever, mas tem outros, como esse, que nascem de uma coleção de pensamento que a gente vai alinhavando conforme a vida acontece.

A semana que passou eu troquei figurinhas com a Liliane. Imigrante como eu, mas lá no Canadá, pedi colo a ela pra lidar com minha tristeza por ser a pessoa que está distante tanto quando a prima querida morre, quanto quando a sobrinha linda faz uma festinha de aniversário de seis anos com os Beatles como tema. Eu sou a que não está lá pra chorar junto e também pra sorrir junto. E mesmo que eu pegue um avião amanhã, não há recuperação possível. Eu já mudei, as pessoas já mudaram, a vida continuou e é tudo irrecuperável, só resta continuar, seja aqui ou lá. Não necessariamente isso é ruim, mas dói muito enquanto eu ainda não construí coisas aqui. Vim para uma cidade onde eu não conhecia nada nem ninguém, estou aqui há sete meses, essa construção não acontece da noite para o dia. Ela demanda paciência e alguma dor.

A Luciana escreveu este post sobre blogs que contam a experiência de quem está longe, impresões de viagem e tal. Parece que tem um povo mal humorado que acha uma perda de tempo escrever sobre Paris ou Lisboa, como se nada mais houvesse a ser dito sobre esse lugares, como se o interessante do relato não fosse, justamente, o olhar de quem me conta. Eu vivo uma situação completamente diferente. Chester não está no imaginário das pessoas que eu conheço. Mas isso não é uma vantagem, como se transformasse meu relato mais interessante. Sinto, na verdade, que isso me aliena mais. Como se eu tivesse falando de uma distopia, da Terra do Nunca – e acaba de me ocorrer que talvez seja um bom momento para dar uma chance pra literatura de fantasia, porque hobbits ou ingleses, são todos pessoas que vivem no “Shire” e falam a língua esquisita da Terra Média. Vivo em uma distopia em que há eu, o Daniel, e um monte de gente estranha.

E bom, por conta disso, o sentimento é de luto do conhecido. E é parte da adaptação, eu sei, mas há dias horríveis. Às vezes semanas inteiras horríveis. Porque o Daniel acorda, toma café pega o ônibus e vai fazer algo que tem relação com um aspecto consolidado da identidade dele. Mesmo que ele um dia mude de área, ele não é mais nem menos especialista do que era no Brasil ou na Alemanha. Há algo além da minha presença que confirma o que ele já sabe sobre si mesmo. Apesar do deslocamento geográfico, da quantidade de coisas a aprender no emprego novo, ele lida com mais dados conhecidos do que eu.

Então eu sou uma pessoa que pode passar dois dias chorando. Normalmente as coisas melhoram depois, voltam a ficar ruins em outros momentos, e assim vamos levando a vida. Mas seria muito fácil usar só meus períodos ruins como se fossem a média e me diagnosticar como deprimida. Eu fiquei pensando nisso lendo primeiro esse artigo que fala sobre a epidemia de diagnósticos de TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade), essa patoligização do comportamento infantil. Depois, lendo hoje a coluna da Eliane Brum, sobre a publicação do DSM-5, a versão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Doenças Mentais, que expande o conceito de doença mental e patologiza uma série de comportamentos. Se levarmos as interpretações  do DSM-5 ao pé da letra, não pode mais ficar triste, ou os lutos não podem se extender para além de duas semanas.

Tenho mais de uma amiga tomando anti-depressivos. Não sou médica, não cabe a mim julgar se é um diagnóstico preciso ou não, mas elas me relataram seus problemas como sendo mais pesados do que tristeza – e muito mais sérios do que uma tristeza ocasional. Eu sequer estou triste o tempo todo. Não me definiria como uma pessoa triste ou doente, mas uma pessoa com uma dificuldade bem grande pra dar conta. E eu vou dando conta dela como posso. Já pensei em voltar pra análise, em fazer as sessões por skype ou algo assim. Eu virei fã da psicanálise porque acho que ela é muito mais uma ferramenta de auto-conhecimento do que algo que patologiza pessoas. Há um preconceito que coloca em um balaio só um monte de questões, de sofrimentos, de comportamentos, e se você paga alguém pra ouvir seus problemas é fútil ou é doida. Já paguei, pagaria de novo, porque sou uma pessoa saudável, mas com um abacaxi aí bem grande pra descascar – uma faca mais afiada que a minha só pode colaborar na tarefa. Neste momento estou descascando sozinha, mas posso mudar de ideia e pedir ajuda, por que não?

Por fim, a Marjorie colocou no FB este vídeo (desculpem, não tem legenda em português, mas tem em espanhol se ajudar, é só caçar lá na barra inferior). E a gente comentou que dá pra concordar com a palestrante, que é o fato de que os trinta são os trinta mesmo e aminha vida toda é fruto das decisões que eu tomei até aqui. Não dá pra pensar que há algo na nossa trajetória que não importa. Concordo também que é meio assustadora essa infantilização de gente adulta, e conheço pessoas da minha idade que tem uma enorme dificuldade se se posicionarem assertivamente em relação às suas decisões. Mas o discurso envolvido é tão, mas tão conservador, que no final achei graça. E juro que não é despeito de quem se sentiu atingida como pessoa-de-trinta-anos-sem-sucesso. Porque olha, todo mundo quer um casamento e uma carreira promissora (aka, que pague muito bem). Todo mundo quer ter filhos. Melhor que você não deixe pra pensar nessas coisas depois dos trinta, vai resolvendo sua vida já aos vinte. Gente, então não pode mais namorar só pra se divertir? Não pode mais experimentar só por prazer? Eu acho mesmo que se aos vinte você sabe com o quê quer trabalhar e sabe que quer casar, não tem porque esperar mesmo. Mas e se as prioridades são outras?

Às vezes me sinto muito mal porque me comparo com este modelo conservador de sucesso. E sinto mesmo como se a vida tivesse passado e olha, como fracassei, agora só falta ficar velha, yadda, yadda, porque esse discurso é mesmo muito forte. Daí, nos dias melhores, eu respiro fundo e me dou conta de que sou só uma pessoa que está com dificuldades pra encontrar uma atividade remunerada e ambientes de socialização fora da internet. É o que temos pra hoje, não tá super legal, mas eu já deveria ter aprendido que a vida não é estática – ainda bem.

Então peço colo quando preciso (brigada de novo, Liliane!), demando atenção quando posso, choro, tenho dias horríveis, mas não posso aceitar o discurso que obriga que a felicidade extrema – ou pior, a apatia diante das dificuldades – sejam obrigatórias. Ou que minhas dificuldades cotidianas sejam sinais inequívocos de doença. Pior: que minhas dúvidas constantes sejam atestado de fracasso.

Das corridas

(Aviso: é sobre corridas de cavalos, amigas veganas. Não acho o máximo, mas assumindo que sou onívora, considerei hipocrisia não ir ou não contar)

O post tá atrasado porque foi na sexta-feira passada isso. E a primeira vez que realizaram corridas de cavalos em Chester foi em 1539. São as corridas mais antigas do Reino Unido, super tradicionais. O evento mais importante da cidade, e a temporada acabou de começar, vão acontecer diversas corridas até final de sentembro. Daí que quando marido contou que o pessoal do trabalho estava organizando uma ida e se era uma boa ideia, achei que valia o experimento antropológico. A cidade fica em polvorosa nos dias de corrida. Muita gente pelas ruas, pelos bares, todo um clima festivo. É divertido fazer parte disso.

O mapa da Racecourse

O mapa da Racecourse

Uma das minha principais preocupações era a roupa, porque, né? Nunca fui a corrida nenhuma, só vi fotos do GP Brasil no Jockey de São Paulo e as madames vão todas de chapéu e etc. Já tinha visto fotos das daqui e as moças de arranjo na cabeça, os moços de gravata. O último sapato social do Daniel se derreteu com as chuvas daqui e eu fiquei meio tensa com a possibilidade de termos que corresponder a um dress code rígido. Mas Daniel colocou uma camisa, eu fui num modo “arrumadinha” (saia e bota, que aqui ainda tá friozinho), e tava todo mundo de acordo, porque ao chegar lá descobrimos que tem gente de terno, gente de tênis, gente de paetês e de abrigo de moletom, ou seja, no bom estilo britânico, ninguém se preocupa muito com o que você está vestindo.

Vista geral do nosso setor e a diversidade das roupas dos expectadores (e só nelas, porque s´tinha gente branca com exceção de meia dúzia de indianos).

Vista geral do nosso setor e a diversidade das roupas dos expectadores (e só nelas, porque só tinha gente branca, com exceção de meia dúzia de indianos).

O que não torna o programa democrático. Pagamos o ingresso mais caro, que dá acesso a infraestrutura mais organizada e ao paddock. Aparentemente, o setor mais caro é o que mais vende ingressos, porque estava mais cheio e tinha maior espaço, o que costuma ser uma inversão do que normalmente espera-se nessas ocasiões. E depois que assistimos algumas corridas do lado externo e finalmente fomos ao paddock, descobrimos um monte de estandes de produtos de luxo, champagne bar, quiosques de restaurantes. Mas tudo em um clima meio farofada: a mulherada já descalça por não aguentar os sapatos altíssimos, os copos e taças de plásticos espalhados. Uma farofa de gente esnobe, digamos.

Daniel contemplando o movimento no paddock

Daniel contemplando o movimento no paddock

Parte da experiência é apostar, a aposta mínima é duas libras, apostamos. E depois de perder algum dinheiro resolvemos seguir um dos colegas do Daniel que já havia ganhado na maior parte das vezes e fizemos certo, recuperamos metade do que havíamos perdido.

Eu, nosso setor, os totens das casas de aposta, a pista e o paddock ao fundo.

Eu, nosso setor, os totens das casas de aposta, a pista e o paddock ao fundo.

Mas né? Não é exatamente divertido para além da observação. Eram sete corridas, que começaram às 13:45 e iam até as 17:00. Correm ali rapidinho e tem meia hora de intervalo pras pessoas apostarem, irem ao banheiro e comprarem mais cerveja. Apostar é legal porque te dá alguma emoção, mas o fato é que depois de 5 corridas nós estávamos bem entediados e cansados de gastar dinheiro. Em algum momento um colega do Daniel me viu bocejando insistentemente e foi me perguntar se eu tava achando tão “boring” assim. Não, imaginazzzz… ronc.

Uma das poucas mulheres jockeys

Uma das poucas mulheres jockeys

Não que tenha sido ruim. Não foi. Foi bem curioso, e eu acho que é parte da imersão fazer coisas assim. Parte do esforço de socialização também, então nem posso dizer que não volto mais lá: se achar importante pra me integrar a um grupo qualquer, capaz que eu volte. Mas ir eu e o Daniel, sozinhos? Não, de jeito nenhum. Com certeza a gente se diverte muito mais gastando o dinheiro em outra coisa.

A foto era dos sapatos, mas o paetê da moça na fila do banheiro roubou a cena.

A foto era dos sapatos altíssimos, mas o paetê da moça na fila do banheiro roubou a cena.

Por fim, tive um insight sobre a super-produção das inglesas, que sempre me incomodou por parecer cafona. Muitas moças aqui são drags, se vestem performativamente. E eu demorei pra entender que o registro era esse, porque 1) venho de um país mais quente em que a quantidade de maquiagem que elas usam derreteria em 15 minutos e 2) frequento no Brasil pessoas muito desencanadas de montação. Daí que eu me considero peruinha, mas uso maquiagem de uma maneira muito naturalista, tipo: “olhem como minhas bochechas são naturalmente coradas”. E é claro que aqui tem gente que sai sem maquiagem. Mas tem essas moças que performam e usam cílios postiços e coques super armandas pra fazer supermercado. E tudo bem, né? Bonito eu não acho, mas já comecei a olhar com menos preconceito e mais generosidade.

Coque supervolumoso e fascinator: inglesas performando.

Coque supervolumoso e fascinator: inglesas performando.

Vá com calma!

Hoje completam-se 125 da assinatura da lei que nem acabou com a escravidão no Brasil (o que ela se propunha a fazer), nem garantir a cidadania da população negra e afro-descendente (o que ela nunca se propôs, mas deveria). 125 anos em que a história contada é que uma princesa muito meiga resolveu ser bacaninha e liberar os escravos, esse coitados. Só depois de adulta soube que o Brasil foi o último país na América a abolir oficialmente a escravidão. Deve ter muita gente que não sabe.

Qualquer pessoa um pouco informada sabe que 1) o Brasil (como o mundo todo) continua contando com a mão de obra escrava na sua cadeia produtiva (e combate isso má e porcamente) e 2) o Brasil é profundamente racista, um racismo estruturado, que se disfarça de muito civilizado porque a polícia faz o trabalho da Ku Klux Klan e nós alisamos os cabelos das crianças pequenas pra que elas evitem o bullying na escola.

Dito isso, volto a falar do meu curso lá sobre a História dos Movimentos de Direitos Civis nos Estados Unidos. Desculpem , o contexto é outro, e eu sei, e nosso racismo não é “pior” nem “melhor” do que o deles, mas opera de maneira diferente. Mas acho mesmo que há analogias possíveis, e por isso conto que Nina Simone escreveu em 1964  a música “Mississipi Goddam”. Em setembro de 63 uma igreja batista foi bombardeada pela KKK no Alabama, matando quatro meninas. A música é uma reação amarga da cantora à indiferença nacional à situação da população negra nos Estados Unidos no geral, e no sul em particular.

Na letra (que tem mal traduzida aqui, mas dá pra ter uma ideia), ela conta que cansou de ouvir “do it slow!” (“devagar!” ou “vá com calma!”), daqueles que se opunham à luta pelos direitos civis. Porque a desculpa mais usada por aqueles que parecer progressistas é que o país não estava preparado para o voto dos negros¹, a desegregação das escolas e dos transportes, entre outras reivindicações. Nina Simone diz que não conta com simpatia do opressor, só quer a igualdade pra ela e para os irmãos.

Nina Simone conta, em uma entrevista da dácada de 80, que passou a ser boicotada por conta da música. Mas quase cem anos após décima-terceira emenda, que aboliu a constituição nos Estados Unidos, imagino que ela não aguentasse mais calada o medo causado pelas ameaças constantes, a humilhação e a certeza de ser cidadã de segunda-classe.

O Brasil não é os Estados Unidos, mas cada vez que se denuncia o racismo, escuta-se alguém dizendo IMAGINA, AGORA TUDO É RACISMO, PERALÁ. O Brasil não é os Estados Unidos, mas é um país tão segregado, que as pessoas acreditam que o racismo, se é que existe, é um problema dos negros, não um problema social. O problemas dos negros é deles, o “nonno” ralou muito quando chegou da Itália de navio, eu não tenho nada a ver com isso, vou ficar sem minha vaga na faculdade? Porque o Brasil não é os Estados Unidos, mas quando se aponta o fato de os negros não estarem na universidade e disto precisar de uma solução AGORA, a resposta que se ouve é “vá com calma, basta investir na escola público e o problema será resolvido daqui há alguns anos, ora essa!”.

O Brasil não é os Estados Unidos, mas as senhoras (quase sempre brancas), que foram criadas por mocinhas trazidas do sertão pra “ajudarem na casa” e “quase como se fossem da família” (quase todas negras, ou quase negras), pulam 3 metros e dizem que o mundo vai acabar porque, 125 anos depois, o Estado Brasileiro chegou à conclusão de que essa mão-de-obra barata, disponível e fartamente explorada por gerações deveria ter os mesmo direitos que a CLT atribuía aos outros trabalhadores sessenta anos atrás, em 1943.

O Brasil não é os Estados Unidos, eu não sou a Nina Simone, mas olha, São Paulo Goddam, tá na hora de parar de exterminar jovens na periferia, tá na hora de ter negros estudando na USP, tá na hora de parar de brincar que tudo foi resolvido magicamente na canetada 125 anos atrás.

1 A décima quarta emenda da Constituição americana, de 1868, diz que nenhum cidadão pode ser impedido de votar em função da cor da pele. Ainda assim, vários mecanismos, oficiais ou não, dificultavam o registro dos negros como eleitores. Cobrando taxas abusivas para o registro ou publicando em jornais o nome dos negros que ousavam se resgitrar eleitores (o que incentivava a retaliação de patrões ou credores), entre outros meios diversos, impedia-se a população de exercer seus direitos políticos.

Este post faz parte da Blogagem Coletiva Luiza Mahin, proposta pelas Blogueiras Negras.

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Das tristezas que se repetem e da vida que continua

Queria agradecer as manifestações carinhosas e os abraços virtuais. Eu ainda estou triste, mas o carinho recebido ajuda a aquecer o coração. Duas primas passaram por aqui e devem ter lido também. Obrigada, mesmo. <3

Semana passada eu não tive energia pra ir ao ensaio da batucada. Mas eu não contei algo aqui (contei resumidamente no Facebook, desculpa quem já leu por lá pela repetição). Lá no grupo ensaiamos uns 50 minutos, paramos por uns 15, e depois tocamos mais uns 40 ou 50 minutos. Nos 15 de intervalo os coordenadores do grupo sempre dão os avisos e tal. E meu inglês funciona bem, mas nem sempre. Eu tenho alguma limitação em compreender coisas fora de um contexto. Então de vez em quando avisavam lá sobre o estado de saúde de uma pessoa da banda. Diziam, tá bem, tá se tratando, tá se recuperando, mas eu não tinha a menor ideia de quem era e nem qual o problema. Cheguei a pensar desde as coisas mais simples quando falaram “tá em casa descansando” (teve bebê, saiu da maternidade) até em algum outro problema crônico.

Há umas duas semanas eu entendi finalmente. O colega disse, muito triste, que as notícias não eram boas, que o estado dela ela terminal. Câncer, como a minha prima. Nesse dia eu já sabia também que a Rosi estava nos cuidados paliativos.

A banda tem um grupo fechado no Facebook. E no sábado alguém postou que este mundo não tinha nem sentido, nem justiça. Ainda no meu próprio luto, não pensei muito naquilo, só estranhei. Enfim, depois descobri que eles perderam a colega na mesma semana. E fui descobrindo mais sobre ela, porque claro, é importante pra quem fica dizer quanto quem foi era incrível. E ela era. Essa mulher que eu não vou conhecer, tinha a idade da minha prima e desde os primeiros ensaios na banda, se envolveu com tudo, da música à caracterização pras apresentações. Tinha um filho com down, já adolescente, que acompanhava a mãe na banda. Era muito carinhosa com todo mundo, cheia de energia, dançava flamenco e agitava várias festas entre o pessoal da banda. Era muito amada, cheia de amigos, e pelo carinho com que as pessoas falam dela, eu lamento também, muito. Por ela, pela família, pelos amigos, e por mim mesma.

Semana passada o câncer levou uma pessoa que eu amava, e outra que eu poderia amar. Como levou minha avó paterna antes mesmo que eu pudesse conhecê-la. Dizima assim parte do presente, do futuro, do passado. Eu sei, as pessoas morrem, e não fosse por câncer, seria de outra maneira. Mas a quantidade de sofrimento imposta no processo é que é assustadora.

***

Quando a morte e a dor nos assombram assim, é preciso muita vida pra continuar. E eu precisava celebrar a minha vida e minha saúde de alguma forma. Mesmo se aqui os dias bonitos tem sido mais frequentes, mesmo que na segunda-feira tenha sido feriado, mesmo se o passeio a Manchester e a companhia tenham sido bons, ainda não era o suficiente. Nunca nada vai ser o suficiente, é essa a verdade, mas eu precisava fazer mais.

Ao me inscrever aqui no sistema de saúde eu devo ter informado que era doadora de sangue no Brasil, porque eu passei a receber trocentos folhetinhos me convidando pra doar. E eu tinha um super pé atrás, porque tive uma experiência meio chata com isso lá na França. Teve uma campanha de doação na cidade em que eu morava, na periferia de Paris, já no final da minha temporada, e eu fui lá doar. Nessa época eu já não aguentava mais estar na França, mas queria que minha atitude simbólica de doar sangue fosse uma espécie de reconciliação.

Longa explicação aqui. As políticas de saúde pública tornam as coisas um pouco mais complicadas, claro. Não entendo mesmo, ainda considerando a janela imunológica, porque um homem que faz sexo com outro homem, mesmo usando camisinha, não pode ser doador. E todo mundo sabe que tem dona-de-casa monogâmica que contrai doenças venéreas só transando com o marido, mas acham mesmo muito importante saber se você teve “muitos” parceiros sexuais no ano anterior (uma vez encrenquei e perguntei o que eram “muitos”), mesmo que sempre se cuide e use camisinha. Então eu sei que impede que muita gente doe sangue, porque há esse constrangimento se você não é membro da sacrossanta liga careta dos heterossexuais monogâmicos. Mas eu curto doar sangue. Pra mim há algo de muito bonito em saber que qualquer pessoa pode receber meu sangue, inclusive alguém que pode me matar na próxima esquina. E também porque não há tecnologia que possa substituir essa minha boa vontade. Então, né, me sinto útil, me sinto “fazendo o bem sem olhar a quem” (pareço atéia, mas…), e sinto que esses quase 80kg que mulher saudável e bem alimentada tem mais é que colocar aí o bom funcionamento do organismo à disposição da sociedade.

Enfim, mas a França. Não pude doar por ser brasileira. O que me disseram é que não testavam o sangue pra detectar a presença de doença de chagas. E eu saí de lá arrasada, não porque fosse fundamental doar sangue naquele momento, mas porque era mais uma amostra da minha condição de estrangeira: nem minha boa vontade servia.

Daí que aqui eu estava com milhões de pés atrás. Liguei duas vezes no serviço. Na primeira, disseram que se eu não tivesse passado há menos de seis meses por áreas de risco de contaminação de malária – e consideram o Brasil inteiro área de risco – tudo bem. Domingo faz sete meses que estamos aqui, então resolvi arriscar.

E é curioso porque eu sou moça de São Paulo que está acostumada a doar sangue nos Hospital das Clínicas, qualquer dia da semana, com uma estrutura permanente e caprichada. Aqui os serviços de coleta fazem uma ronda nas cidades menores e de tempos em tempos avisam quando vão estar por perto. E ontem estavam aqui em Chester, instalados em um dos salões da pista de corrida de cavalos. Tudo muito bem organizado só estranhei o piso de carpete, mas macas menos confortáveis que as do HC. Sobre o fato de ser brasileira? A enfermeira que me entrevistou foi checar com a responsável, que revendo minhas informações e o fato de eu estar há sete meses aqui só orientou um “additonal test for t. cruzi”, que vem a ser, claro, trypanosoma cruzi, o da doença de chagas. Aparentemente os ingleses não esnobam o sangue de gente saudável, ponto pra eles.

Eu ainda estou triste, muito. Mas estou tão viva e saudável que meu sangue vai poder salvar alguém por aí. Pode ser uma estrangeira, como eu. Pode ser um soldado que voltou doente depois de matar gente inocente no Afeganistão. Pode ser um velho rabugento e xenófobo. Pode ser um misógino estuprador. Não me importa. O suquinho doce, os biscoitos, o cuidado, os sorrisos e os vários “thank you” que eu recebi ontem por ter ido lá ontem de todas as pessoas que me atenderam (e justiça seja feita, a enfermeira que tinha me atendido lá na França foi muito simpática também) aqueceram muito meu coração. Quero ver alguém falar que eu não estou me esforçando pra me adaptar, se depois de algum suor e tantas lágrimas, até sangue tô deixando no processo.

Rosi

A família é grande. São 40 primos de primeiro grau do lado da minha mãe e só 10 por parte de pai. Alguns são mais próximos, mas tem gente que eu passo tanto tempo sem ver que, se encontrar na rua, não reconheço. Sem mencionar, claro, os filhos do primos.

A minha tia Dainha é a irmã mais velha do meu pai. E no meio dessa multidão de tias (são mais tias do que tios) eu posso afirmar, sem sombra de dúvida ou medo de cometer injustiça, que ela é a tia com o sorriso mais doce, com o olhar mais carinhoso. E se não sou indiferente ao sofrimento humano de maneira geral, me corta o coração imaginar minha tia sofrendo.

Uma das filhas da tia Dainha é a Rosi. Uns 15 anos mais velha do que eu, acho. Muito jovem a Rosi se casou com o Machado, que até onde eu me lembre, era um cara muito bacana, muito querido pela família. E se tenho dificuldades pra me lembrar é porque o Machado foi atropelado por um caminhão quando voltava de bicicleta do trabalho em 1991. Deixou viúva minha prima, com dois meninos pra criar, o mais velho com 5 anos de idade.

Poucos anos mais tarde, ela ainda devia ser mais jovem do que eu sou hoje, a Rosi teve câncer de mama. E se tratou, mas sofreu um bocado, e imagino que a possibilidade de deixar os filhos orfãos ainda tão pequenos fosse assustadora.

Apesar dessa história tão difícil, a Rosi era uma pessoa leve, tranquila, e que gostava muito de viver. Os dois filhos se transformaram em caras muito bacanas e eu sei que ela se sentia muito orgulhosa por isso.

A Rosi morreu ontem. Há uns dois anos minha mãe me ligou no trabalho, chorando, pra dizer que o câncer dela tinha voltado, dessa vez no pulmão. E eu chorei junto com ela, porque eu sei que a vida não é justa, mas por que mais sofrimento pra alguém tão bacana?

Fui visitá-la duas vezes neste tempo. A última no aniversário dela do ano passado. Ela fez uma festinha, reuniu as pessoas queridas e fazia muitos planos pra festa dos 50 anos, que nunca acontecerá. Eu sinceramente não sei se os planos eram pra motivá-la ou pra motivar a família. Imagino que fossem as duas coisas.

De uns tempos pra cá a saúde dela se degradou bastante e ela já não conseguia apresentar esse bom humor e energia que tanto marcavam a sua personalidade. Sofria muito pra conseguir respirar, e sabia que ia morrer. Os filhos pediram férias no trabalho pra poder ficar ao lado da mãe. Minha mãe me ligava pra dar notícias e chorar, e eu chorava junto com ela. Ontem ela ligou no começo da noite daqui, disse que tinha voltado de Cubatão (a família da tia Dainha vive toda na baixada santista) e que a situação era muito grave. E choramos mais um pouco. E mais tarde meu pai me procurou pra dizer que minha prima finalmente tinha descansado.

Eu posso aceitar, ainda que com um pesar imenso, que velhinhos, avôs e avós, morram. Eu perdi esse ano uma tia, que já tinha netos adultos, Daniel perdeu a avó materna. É dolorido, devastador pra quem é mais próximo, mas não me revolta, como não me revoltou perder meu avô paterno quando eu morava na França, ou perder a minha avó materna em 2002, que morava na minha casa desde que eu tinha 10 anos e que claro, era muito presente na minha vida. São ausências que doem em paz.

Mas há mortes que me revoltam muito. E sim, há tragédias sociais enormes por aí, que me revoltam um tanto, mas hoje eu estou falando desta, da pessoal. Eu não aceito que minha tia tenha que enterrar a filha. Eu não aceito que esses meninos tão bacanas, que já foram privados de crescer ao lado de um pai que era apaixonado por eles, tenham que não só perder a mãe, mas de assisti-la sofrer dia após dia, sem que pudessem ajudá-la. É triste pensar que eu estou aqui tão longe e, quando voltar ao Brasil, quando finalmente rever minha tia e meus primos, todos terão no olhar essa ausência enorme.

Hoje eu sou só dor e revolta, porque a morte da minha prima é daqueles eventos que me fazem achar que a vida pode ser muito injusta e triste. Eu queria abraçar meus pais, eu queria abraçar a minha tia, eu queria estar lá de alguma forma, mas o que eu queria de verdade, por mais irracional que seja, é que nada disso acontecesse, que ela não morresse, que meus primos não sofressem mais. Por isso hoje, pra mim, não há consolo, e eu escrevo não pra buscar empatia de quem me lê, mas pra desabafar no meu espaço.

Mudando

Como previsto, a mudança foi muito menos traumática do que temíamos – o que não significa que não tenha sido cansativa (e eu sei que a frase ficou estranha, mas é que a imaginávamos que seria simples, mas havia um medo de que não fosse). Na sexta-feira a tarde pegamos a chave com a imobiliária, assinamos o contrato e começamos a trazer coisas pra cá. Mas assim, não é que assinamos e viemos. Teve que rolar uma emoção. Fechamos a vinda pra este apartamento com muitas semanas de antecedência, marcamos o dia pra pegar as chaves, depositamos o primeiro aluguel e a garantia 10 dias antes e mesmo assim, advinha de a imobiliária tinha tudo resolvido? Não.

Pra começar, quando chegamos lá no horário combinado, o corretor responsável disse que tinha tentado contatar o proprietário o dia todo mas ele não tinha retornado. Daniel arregalou os olhos e explicou que, veja bem, a gente precisa dessas chaves. Daí o moço foi falar com uma colega que disse que tudo bem nos entregar o apartamento sem a assinatura do proprietário no contrato. Vejam bem, se você coloca lá seu apartamento pra alugar há algumas semanas, deixa a chave na imobiliária e os encarrega de cuidar da burocracia deve ser porque você quer alugar, certo?

Enfim. Eu fiz o pagamento inicial uns dias antes e mandei um e-mail com o comprovante? Alguém me respondeu confirmando? Não. Mandei de novo. Responderam? Também não. Daí liguei, avisei e disseram “ok, tá aqui”. Eu não sou uma pessoa organizada, mas do alto da minha desorganização, o que eu faria? Imprimiria o comprovante e colocaria na pasta do cliente, né? Pode ser no dia que que recebi, pode ser no dia que sei que o povo vai assinar o contrato. Tava lá o comprovante? Não, claro. E aí foram perguntar que dia a a gente transferiu mesmo? Qual o valor mesmo? Ah, tô vendo com o gerente do banco e… Sério, eu cheguei a pedir licença e me logar no meu e-mail pra mostrá-lo, porque olha.

Mas o mais surreal foi pedirem um comprovante de identidade que tivesse também a indicação da residência. Olha só, gente, mas nós estamos nos mudando. Pra esse apartamento aí do contrato. Estamos saindo daquele lá que vocês checaram as referências. Qual o sentido? Bom, mas precisava. Eu tava com a ficha da nossa identificação na polícia como imigrantes. Não servia. Sugeriram ao Daniel imprimir uma cópia do extrato bancário. O fato de um extrato bancário ser aceito e o comprovante da polícia não é sintomático do neoliberalismo, mas o post não é sobre isso, né? Então marido foi até o banco só pra descobrir que não aparece endereço no extrato. Assim como não aparece em lugar nenhum do site do banco alguma tela em nossos nomes estejam acompanhados dos endereços cadastrados. Por fim eles foram “legais” e aceitaram nos dar a chave contanto que o Daniel levasse no sábado a cópia do Council Tax (o IPTU). Olha. Haja. Paciência.

Continuando (vai ficar longo, gente), eu tinha passado a semana inteira tensa. Como visitamos o apartamento com o inquilino anterior e ela tinha dado a entender que não havia utensílios além dos móveis, eu fiz uma compra online de pratos, copos, essas coisas básicas na semana anterior à mudnaça. O site dizia que a entrega seria no sábado, 27 o que era perfeito. Mas duas horas depois eu recebi um SMS da loja dizendo que já estava faturado. Liguei no SAC e expliquei, gente, please, por favor, eu só mudo no sábado. Não adianta mandarem antes. E a moça disse que não tinha como fazer isso, mas que se não encontrassem ninguém, tentariam entragar mais duas vezes. Terça-feira, dia 23, chegou e-mail de que tudo já havia sido entregue.

Agora a explicação importante: aqui não ter porteiro, né? Então eu descobri que o hábito é, se a pessoa não estiver em casa, interfonar no vizinho e pedi-lo pra receber. Pegam a assinatura da pessoa (mas nem sempre) e não o apartamento. Você que se vire pra encontrar depois. Então já recebi coisas pra vizinhos e já tive coisas recebidas por eles. Mas puxa, neste caso, eram várias caixas, porque até um cesto de lixo grande eu comprei. Liguei no SAC de novo, xinguei, e a moça me deu o nome de quem assinou e me perguntou se não me soava familiar. Não, minha senhora, eu não me mudei ainda, não conheço ninguém, eu avisei pra entregarem só no sábado. Enfim. Quando fomos assinar o contrato de aluguel, advinhem o nome do proprietário? O sujeito que assinou o recebimento. Por um super golpe de sorte, o proprietário estava aqui quando a entrega foi feita. Ao chegarmos aqui, encontramos nossas caixas sãs e salvas, e nem tivemos ainda a oportunidade de agradacer por isso. <3

Mas vamos à logísta. O apartamento novo fica a coisa de um quilômetro do antigo. Fizemos na sexta uma viagem de táxi com 4 malas enormes, basicamente as roupas. Esvaziamos tudo, voltamos com duas malas pro antigo e dormimos por lá. No sábado, viemos em mais uma viagem de táxi, duas malas, carrinho de supermercado, umas caixas. Voltamos ainda duas vezes, uma no sábado e uma no domigo pra buscar o resto dos livros e coisas da cozinha. A pé. No sábado a tarde, super carregados, éramos olhados com simpatia pelos transeuntes, em especial os mais velhos. Devem ter pensado: “ah lá, que bonitinho, estudante se mudando, como são bem dispostos os jovens”. Sério, o olhar de “que bonitinho” de uma senhora me fez me sentir como se tivesse 20 anos. Sabe como é, gente de 30 anos deveria se mudar mais respeitável.

Ah sim, um parágrafo isolado e sem sentido: enquantava arrastávamos malas e carrinhos por aí, vi um carro parado, esperando pra virar em um cruzamento, com um sujeito que era a cara do Daniel Craig que, pra quem não sabe, é nascido em aqui em Chester. E eu chamei a atenção do Daniel pro fato. E Daniel disse que não era parecido, era o próprio. Eu disse que não. A essas alturas, o cara já tava acenando e sorrindo. Eu acho que era delírio de gente que trabalha pra caramba, mas arranja tempo pra tomar cerveja no meio das caixas. Jamais saberemos.

O apartamento novo é fofinho, mas tem mais problemas que o anterior. O sofá tem um buraco que estava sendo coberto com almofadas pra disfarçar, e ainda não tivemos oportunidade de falar com o proprietário sobre isso (vocês acham mesmo que a imobiliária já mandou nossa cópia do contrato?). No final das contas, a casa tinha utensílios de cozinha, sim. Mas algumas coisas em tão horrível estado que fiquei alivida de ter comprado os meus. Daí somos obrigados a entulhar tudo em um armário. O banheiro tem gabinete, mas a pressão do chuveiro não é lá aquelas coisas. O varão da cortina do banheiro despencou. Tava meio podre, compramos outro, o único que encontramos no Tesco, por enormes 22 beths. Colocamos no lugar. Advinha quem despenca duas vezes por dia? Estamos nos virando com a geladeira pequena e eu descobri que o mais irritante nem é a falta de espaço, mas o fato de ter que abaixar muito cada vez que a gente quer alguma coisa. Mas ainda assim, é legal. É legal cozinha integrada com a sala, porque o exaustor é super potente e não fica cheirando comida. Tem varanda, o que pra fumante é ótimo (aqui os contratos de aluguel não permitem que se fume dentro do apartamento). Bate muito sol – quando tem sol – e as roupas secam numa boa no varalzinho de montar. A pia não é de plástico branco, mas de metal.

Enfim, morar de aluguel (beijo inquilinos todos) é exercitar o desapego. Não dá pra ter tudo. Tudo bem não conseguir resolver algumas coisas nunca. A vida é mais do que isso, e quando a gente consegue fazer fotossíntese na varandinha de casa, dá até pra ser feliz. :)

Seguem as fotos. Só não reparem a bagunça.

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Mudança

A primavera finalmente chegou com tudo. Demorou essa danada. Os narcisos (ou daffodil, palavrinha bem bonita essa) chegaram já em março e ficaram um tempo brigando com a neve, pobrezinhos (falha minha em não resgitrar essa imagem, das flores soterradas na neve). Mas agora eles estão por todos os lados, devem ser a versão inglesa das maria-sem-vergonhas: dão no estacionamento, nos canteiros da escola, nas muretas, nas muralhas, uma festa amarelinha.

Não chega a fazer calor de verdade, mas um tempo fresco daqueles que casaco leve dá conta. As noites ainda são frias. Essa semana tá cinza e úmida, mas o final de semana foi ensolarado e agradável. E quando o céu está aberto, tem sol até mais de oito da noite. Sempre e quando o tempo está convidativo, saímos pra dar uma voltinha, nem que seja uma caminhada curta.

***

Vamos nos mudar na sexta-feira. Logo quando chegamos tínhamos muita pressa de encontrar qualquer lugar razoável, e acabamos pegando um apartamento de dois quartos, um pouco mais caro do que gostaríamos. Como eu tinha trabalho, não chegou a ser um problema, e o fato dele ter além da mobília a maior parte dos utensílios domésticos foi muito útil no começo.

Mas nosso contrato era de só seis meses e neste tempo sempre olhávamos as opções de imóveis disponíveis no mercado. Chegamos a considerar mudar para um sobradinho geminado, como os muitos que existem por aqui, mas o que nos agradou foi um apartamento junto do centro da cidade, com um quarto só e no preço que gostaríamos de pagar quando chegamos. É, basicamente, o que estávamos procurando meses atrás. Por sorte, ele foi anunciado no final de fevereiro, mas os antigos inquilinos ficaram até meados de abril, o timing perfeito pra nós aqui também. Então visitamos o imóvel logo que foi anunciado, fechamos o negócio há meses, mas só sexta-feira pegamos a chave e começamos a carregar as nossas coisas pra lá. Como estamos saindo de um mobiliado para outro mobiliado, não chega a ser tanto trabalho. Mas sim, em seis meses compramos casacos, algumas peças de roupa e mais roupas de cama, livros, alguns utensílios de cozinha. Vamos precisar comprar mais coisas pra cozinha, já que aqui havia uma boa quantidade de pratos, copos, talheres e panelas.

O apartamento novo tem muitas vantagens, mas alguns problemas a serem resolvidos. Entre as vantagens, um banheiro com espelho no armário. Aqui não tem armário, não tem gabinete, não cabe um carrinho, não tem nem porta-toalha direito. Daí usávamos o segundo quarto quase como base de acampamento, já que desodorante cremes e perfumes tinham que ficar largados por lá. Não conseguimos tirar nada das necessaires, o que dava mesmo uma impressão de não poder nos espalhar com vontade. Há também, além de guarda-roupas, uma boa cômoda, um móvel estreitinho para os livros, e uma espécie de gaveteiro de vime perfeito pra colocar maquiagem, secador de cabelo e todas as frescurinhas que não couberem no banheiro. Bem bacana.

Entre as desvantagens, a primeira: não tem máquina de lavar louça. Não chega a ser um drama, mas olha, nos acostumamos a ter esse conforto, que atire a primeira pedra quem nunca. A geladeira é pouco maior que um frigobar, e acho que vamos ter que conversar com o proprietário e comprar uma nova, porque pra quem compra coisas frescas e cozinha de verdade, vai ficar um tanto complicado. Fora isso, eu reclamo da saudade que eu tenho da mesa grande que tinha em São Paulo, em que podia usar o computador em uma ponta e comer na outra, nem precisar ficar reorganizando. A mesa que temos aqui é pequena. A de lá, é só uma bancada pra refeições e vamos ter que arranjar um outro espaço de trabalho, comprar mesa nova, sei lá. Essas coisas me deixaram tensa no começo, mas hoje já enxergo como potencial de fazer as coisas à nossa maneira. Vamos pra um lugar mais barato e usamos o dinheiro dessa diferença pra comprar coisas nossas, pra deixar um pouco mais com a nossa cara.

Apesar de felizes sensação toda é de cansaço, porque eu me lembro que sete meses atrás estávamos desmontando o nosso apartamento em São Paulo, o quanto foi cansativo, e chegamos aqui, procuramos um outro na correria, sem saber nada sobre a cidade, mas exaustos de ficarmos semanas entre a casa dos meus pais, dos meus sogros, apartamento temporário, hotel. Apesar de tudo ser mais simples desta vez, parece que esse incômodo vem nos assombrar em flashback. Combinamos aqui que uma nova mudança a médio prazo só acontecerá em caso de extrema e indiscutível necessidade, porque ninguém tem energia mais pra isso.

O apartamento novo fica ao lado do canal, em uma parte bem fofinha da cidade. Os patinhos serão nossos vizinhos, e essa parte é bem legal. :)

2013-04-20 15.23.54